O ministro Gilmar Mendes, decano do Supremo Tribunal Federal (STF), virou o holofote das redes sociais para a Justiça Eleitoral nesta terça-feira, elogiando a lisura do processo, os mesários, os eleitores e as urnas eletrônicas. Uma mensagem que, à primeira vista, soa como um bálsamo para a democracia em pleno ano eleitoral. O detalhe é que esse mesmo ministro, semanas antes, foi o centro de uma série de embates e decisões que muitos no meio jurídico viram como um “atropelo” ao próprio Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Afinal, quem é o Gilmar que enaltece a Justiça Eleitoral agora, depois de tanto agitar o cenário?
O Palco Político-Eleitoral de 2026
Estamos em 2026, ano de eleições, e o Brasil vive o caldeirão habitual de disputas intensas. Nesse cenário, o Judiciário, especialmente o STF e o TSE, tem sido ator central, muitas vezes decidindo os rumos da campanha antes mesmo do eleitor ir às urnas. A atuação de ministros como Gilmar Mendes, com seu peso no Supremo, ganha proporções ainda maiores, ditando ritmos e, por vezes, causando tremores nas estruturas eleitorais.
Os Responsáveis e Suas Jogadas
O protagonista dessa história é, sem dúvida, o ministro Gilmar Mendes. Em setembro, ele já havia acendido o sinal de alerta, usando suas redes sociais para criticar a “politização” da Justiça Eleitoral e sugerir que magistrados engajados em “proselitismo partidário” deveriam repensar sua permanência no TSE. As mensagens, vistas como indiretas, miravam especialmente o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, e o vice-presidente, André Mendonça, ambos indicados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.
A tensão escalou. Gilmar Mendes não economizou nas palavras, chegando a chamar Mendonça de “boneco de campanha” e “pixuleco Eleitoral” em sessões do STF e publicações no X. Nunes Marques, por sua vez, foi taxado de “imperador” por suas decisões em propaganda eleitoral.
Mas o “atropelo” de fato se materializou nas vésperas do primeiro turno. Em uma sequência de decisões individuais, Gilmar Mendes derrubou determinações de Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) e até mesmo do próprio presidente do TSE. Juristas, inclusive, cunharam a expressão “TSE paralelo” para descrever a atuação do ministro.
decisões que Mexeram no Tabuleiro
Entre as decisões mais notórias, Gilmar Mendes reverteu determinações do TRE-PR que favoreciam Sergio Moro (PL) e liberou propagandas de Sandro Alex (PSD) sobre aborto. Na Bahia, ele afastou direitos de resposta concedidos pelo TRE-BA a Jerônimo Rodrigues (PT) contra publicações de ACM Neto (União Brasil).
A jogada mais comentada, porém, foi a inclusão do candidato Renan Santos (Missão) no debate presidencial da TV Globo, revertendo uma decisão de Nunes Marques e Cármen Lúcia. Para isso, o ministro utilizou o que especialistas chamaram de “atalhos” – pedidos de extensão em reclamações antigas no STF, uma prática que evita a distribuição regular de casos e, segundo críticos, pode burlar as regras de transparência. O impacto direto foi a alteração nas regras de um debate crucial para os eleitores, mostrando como uma única canetada pode mudar o jogo Eleitoral.
O Elogio Pós-Batalha e os Impactos Reais
Eis que, passadas essas movimentações intensas, Gilmar Mendes surge nas redes sociais para, vejam só, enaltecer a Justiça Eleitoral. Ele celebrou a “maturidade democrática” dos brasileiros, a “organização absolutamente escorreita” das eleições e a “eficiência da apuração”. Não deixou de lado uma alfinetada sutil ao bolsonarismo, ao afirmar que “nenhuma liderança política de expressão” questionou o resultado das urnas do último domingo.
Para o eleitor comum, essa montanha-russa de críticas e elogios, de intervenções e defesas, pode parecer confusa. O que fica é a impressão de um Judiciário que, embora essencial para a fiscalização do pleito, por vezes se torna um palco de disputas internas, onde as regras parecem flexíveis dependendo do intérprete. A lisura da eleição, que deveria ser garantida por uma Justiça Eleitoral coesa, acaba sendo constantemente testada por decisões que geram instabilidade e questionamentos sobre a imparcialidade.
A economia, embora não diretamente afetada por cada decisão judicial Eleitoral, sente o peso da instabilidade institucional. Um ambiente político imprevisível, com poderes se digladiando publicamente, não inspira confiança para investimentos e pode gerar incerteza sobre os rumos do país após o pleito.
Contrapontos e Consequências
Do lado de Gilmar Mendes, a justificativa para suas intervenções sempre foi a de que o STF atua como guardião final da Constituição, intervindo para preservar a “higidez das eleições” e seus próprios precedentes. Uma visão que, para ele, legitima a supervisão sobre o TSE.
No entanto, as críticas de juristas sobre o “TSE paralelo” e a personalização do poder são um contraponto forte, apontando para o risco de esvaziamento da Justiça Eleitoral e de centralização de decisões em um único gabinete. Até mesmo a polêmica de Gilmar Mendes supostamente entrar na cabine de votação com um celular (desmentida por sua assessoria, que alegou ser uma carteira funcional com “cola” eleitoral), ilustra como a lupa está sobre cada passo dos membros do Judiciário em ano eleitoral.
As consequências dessas jogadas de bastidores são claras: a percepção da imparcialidade judicial é posta à prova. Em um ano Eleitoral, a confiança nas instituições é um pilar da democracia. O eleitor precisa ter clareza sobre quem está agindo para fortalecer o processo e quem, talvez sem querer, acaba introduzindo mais ruído e incerteza.
Conclusão
A virada de Gilmar Mendes, de crítico ferrenho a entusiasta da Justiça Eleitoral, é um lembrete de que no xadrez político brasileiro, as peças se movem em ritmos próprios. O que parece um elogio oportuno, na verdade, é a cereja do bolo de um período de forte intervenção judicial nas regras da campanha. Resta ao eleitor observar com atenção: quem age para consolidar a democracia com transparência e quem, com suas idas e vindas, acaba por deixar mais dúvidas do que certezas sobre os bastidores do poder.







