E se a monarquia nunca tivesse acabado? Um Brasil entre o sonho e o fiasco

Vamos começar com um exercício para a imaginação — ou uma boa dose de ceticismo: e se o Brasil nunca tivesse jogado a coroa fora em 1889? E se, em vez de virar uma república, tivesse continuado como um império? Será que a gente estaria aqui hoje festejando um país mais desenvolvido, organizado e respeitado no mundo? Ou só teríamos trocado um tipo de atraso por outro, embalados em pompa e circunstância?

Primeiro, um aviso para os puristas: o que você lerá aqui é uma interpretação, uma leitura cáustica da história que poderia ter sido — nada mais. A verdade é que a História não é um “faça e refaça” na Netflix, e sim uma sucessão implacável de erros e acertos, conquistas e tropeços.

O Império do Brasil, que chegou ao fim com a proclamação da República, tinha um rosto popular — Dom Pedro II — amado por muitos, mas com pés de barro. Afinal, o imperador não deixava herdeiros homens para garantir a continuidade do trono, e sua filha, a Princesa Isabel, enfrentava a inescapável misoginia daquela época. Só o fato dela ser mulher já fez muita gente torcer o nariz. E pra piorar, era casada com um francês — o temido Conde d’Eu — o que despertava aquela velha paranoia do brasileiro: “estrangeiro não, obrigado”.

A escravidão, essa mancha vergonhosa que pesava sobre o império, foi o calcanhar de Aquiles. A abolição tardia — assinada pela própria Isabel — não só atrasou o país, mas plantou a semente da sua própria queda, pois os grandes fazendeiros escravocratas viraram republicanos de última hora, prontos para derrubar o trono. A demora em abrir mão da escravidão não foi apenas uma questão moral, foi uma jogada política desastrosa, que atrasou o desenvolvimento econômico e social por décadas.

E se nada disso tivesse acontecido? Suponhamos que Dom Pedro II tivesse vivido mais tempo, e que Isabel tivesse ascendido ao trono sem maiores sobressaltos. A famosa Guerra do Acre, a expansão da borracha, o impacto das duas Grandes Guerras Mundiais… todos esses eventos históricos seriam jogados em um tabuleiro diferente, talvez com alianças inesperadas, como uma aproximação com a Alemanha durante a Primeira Guerra, em uma reviravolta digna de novela política.

Mas não vamos nos iludir: a monarquia brasileira nunca foi um sistema imune a intrigas, crises ou transformações. O drama da sucessão, com Dom Pedro de Alcântara renunciando ao trono para casar com uma plebeia, é só uma amostra do quão frágil poderia ter sido a continuidade do império.

Avançando para o século XX, imagine um Brasil monárquico encarando a Grande Depressão, tentando se industrializar ainda dominado por uma elite agrária e, pasmem, provavelmente mantendo uma inflação estável, mas com um PIB per capita modesto — afinal, escravidão ou não, desenvolvimento econômico não nasce do nada.

Na Segunda Guerra Mundial, será que o Brasil imperial teria mantido a neutralidade, ou se alinharia com os aliados, ou ainda, ousaria alguma aliança com as potências do Eixo? No fundo, o que podemos esperar de um regime conservador com fortes laços monárquicos senão um discurso de “ordem e tradição” que naturalmente rejeitaria qualquer ameaça socialista?

Esse conservadorismo pode ter mantido a monarquia longe das revoltas internas que balançaram a América do Sul, mas certamente teria criado tensões regionais, separatismos e tentativas de golpe, afinal, a história da região é pródiga em desafiar qualquer ordem centralizada.

E o Brasil no século XXI? Provavelmente um país com menos rodovias e mais ferrovias — isso sim é um achado! Imagine a economia nacional pagando menos por transporte, mas ganhando com a lentidão do trem… Ah, e sobre a corrupção? A monarquia, claro, não é um paraíso incorruptível. Talvez com o poder real de dissolver parlamentos e convocar eleições, o jogo fosse um pouco mais duro para os corruptos, mas sejamos francos: políticos brasileiros — ou monárquicos —, não são exatamente conhecidos pela santidade.

A educação, essa joia esquecida, poderia ser o ponto forte, com a família real valorizando a instrução e a cultura. Talvez sim, um Brasil onde a educação não fosse só um gasto, mas um investimento sério. Um lugar onde o catolicismo fosse a religião oficial, mas outras crenças encontrassem seu espaço, como em muitas monarquias europeias.

Quanto à cultura popular, os desfiles da família real seriam um espetáculo à parte, transformando membros da realeza em celebridades nacionais, enquanto feriados como o 7 de setembro ganhariam um peso histórico e simbólico talvez maior que o atual 15 de novembro — feriado que, aliás, nem existiria no calendário de um Brasil monárquico.

E o futebol? Ah, isso não mudaria tanto. O esporte continuaria sendo a paixão nacional, e o Brasil, mesmo sob a coroa, muito provavelmente teria continuado sua caminhada gloriosa, acumulando títulos e jogando com a garra que lhe é característica.

Mas, sejamos realistas, esse “Brasil Imperial” provavelmente jamais teria se tornado uma potência desenvolvida e moderna. A inflação baixa dos tempos do império não gerava riqueza, e a burocracia e o intervencionismo do regime monárquico poderiam ter sido tão sufocantes quanto em qualquer república.

Em resumo, se a monarquia tivesse sobrevivido, o Brasil seria um país diferente — talvez mais elegante em seus símbolos, com algumas estruturas políticas e culturais que nos fariam parecer uma Europa tropical — mas ainda longe do desenvolvimento e da qualidade de vida que desejamos. Um império que talvez tivesse envelhecido mal, tentando se equilibrar entre tradição e modernidade, mas sempre preso aos próprios grilhões históricos.

No fim das contas, o Brasil que temos é fruto de escolhas, erros e acertos que não podem ser revertidos. E enquanto alguns sonham com reis e princesas, a verdadeira mudança exige menos coroas e mais coragem para enfrentar a realidade de frente.